quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Não me escrevas poemas

Odeio essas malditas rimas
Como lutas com as palavras
Como as esgrimas
Parecem-me algemas
Esses malditos poemas

Parece-me tão hermética
Essa maldita prisão
Essa miserável métrica
O que eu quero é prosa
Uma escrita pura e deliciosa

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Da “Pérola do Atlântico” à “Terra do Sol Nascente”

O texto que se segue foi escrito há muito tempo, contudo, retrata uma viagem que me marcou...

A “terra dos pauzinhos” e “dos olhos em bico” sempre fez parte do imaginário de todos nós.
(…), as malas estavam prontas (...) Entrámos no avião e a odisseia até ao Oriente começava. É claro que existiram as longas horas dentro de aviões e as intermináveis esperas em aeroportos. Mas tudo foi recompensado quando observámos, a partir da janela do avião, uma terra pincelada de tons de verde e azul.

As nossas férias começavam a ser perfeitas… No entanto, fomos confrontados com costumes e maneiras de ser completamente diferentes das ocidentais. E se dissesse que a adaptação foi fácil estaria a mentir. Contudo, todas as dificuldades, que iam desde o comer até ao tirar os sapatos à entrada das casas, foram superadas largamente por tudo o que existiu de bom nesta viagem.

Uma das experiências que mais me agradou foi a visita a um templo budista. Aqui, as portas de uma das salas, que transpiravam tranquilidade e simplicidade, eram feitas de papel. O santuário, contrastando com esta leveza, era rude, com uma arquitectura mais agressiva, com enormes colunas douradas suspensas no ar. Era um local intrigante, capaz de nos transportar até uma outra dimensão, era realmente um espaço cheio de história e de mistérios. O cheiro a incenso andava no ar… e foi aqui, na “casa do buda”, que fizemos meditação: uma experiência nova que nos faz esquecer o mundo à nossa volta.

As visitas a museus foram outro ponto forte da nossa passagem por terras nipónicas. Cada museu tinha um assunto mais interessante que o anterior.

O mais importante de toda esta aventura foi o facto de todos nós termos sido “adoptados” por famílias japonesas, que nos acolheram em suas casas. Assim, deixámos estas nossas vidas ocidentais e entregámo-nos aos pauzinhos, às salas sem sofás, às comidas típicas, às camas no chão, ao Ohayoo gozaimasu (bom dia) de todas as manhãs, ao Sayoonara de todas as despedidas, enfim…, a nossa vida passou a ser regida por costumes japoneses. E tudo isto foi uma fonte de saber e conhecimento que nos permitiu trazer para a Madeira uma bagagem maior, mais rica e com mais amizades.

Era impressionante a calma das gentes e a simplicidade de cada um.

É indescritível tudo o que aprendemos e vimos em 15 dias. Fomos bombardeados com acontecimentos, locais e objectos inimagináveis. As cidades desenvolvidas eram um regalo para os olhos: os prédios gigantescos, milhares de lojas, os comboios de alta velocidade, a multidão… Mas em contraste, existem as típicas casas de madeira plantadas junto aos arrozais, entre as montanhas e o mar. Podíamos sentir o que a natureza tem de mais belo: o chilrear dos pássaros, o vento a lutar com a copa das árvores e a embalar as plantas de arroz…

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Profusão de Sensações: O Natal invadiu a minha cidade!

O Funchal, como qualquer bom anfitrião, vestiu-se a rigor para a maior festa do ano e não deixou ninguém indiferente. Perfumou-se com essências de pinheiro, de castanhas assadas e da típica carne, vinho e alhos. As suas ruas iluminaram-se: as empertigadas luzes, que vão do azul ao vermelho, passando pelo dourado, treparam as árvores, debruçaram-se sobre as ribeiras e instalaram-se em muitas casas!


As pessoas, agora, passeiam-se com alguma calma, procurando sorver um pouco da extravagância de cor que a “cidade de funcho” lhes proporciona: em cada esquina encontram-se Pais Natal carregados de balões, presépios e barraquinhas recheadas de sabores tradicionais. Os estrangeiros, que nesta época nos visitam em grande número, surpreendem-se a cada instante, retêm o olhar em cada pormenor e não dão descanso as máquinas fotográficas.


Ontem, debaixo de um céu ameaçador, arrisquei-me e desci até ao Mercado munido de boa disposição, óptima companhia e, claro, de um casaco impermeável. Apesar, do tempo pouco favorável, as pessoas não quebraram a tradição e aventuraram-se nas compras de última hora. O interior do mercado estava um regalo para a vista: de todos os lados explodiam cores! As barracas estavam carregadas de frutas viçosas e de flores luxuriantes. Já na praça do peixe, as pessoas reuniram-se para entoar os cânticos de Natal. Abençoados pela chuva, todos os que lá foram (ricos ou pobres), deixaram-se levar pelo espírito da época…


Um Feliz Natal!

ROMARIA DE NATAL

"CEBOLAS SEMILHAS, TAMBÉM BATATINHAS
PIMENTAS E ALHOS, GALOS E GALINHAS;
OVOS E TRIGO, LARANJAS CUSCUS
FOI O QUE TROUXEMOS, DESCULPA JESUS"

Feliz Natal!


terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Vidas - excertos de uma reflexão acerca da minha experiência enquanto aluno de enfermagem

No dia-a-dia tenho o privilégio de contactar com um grande número de pessoas, todas elas diferentes e com percursos de vida únicos. E é esta riqueza de experiências, esta miscelânea de gente e gentes, que contribui para o meu crescimento, muito mais que académico, pessoal.

Do lado de lá da secretária já se sentaram tantas pessoas, cada uma com o seu acervo de histórias, tão ricas quanto possível. A maioria delas, talvez pelo fado que nos é característico, tem um enredo saturnino e mostra, muitas vezes, um lado menos bonito. Contudo, neste estágio cruzei-me com um conjunto de vidas tão diverso, tão eclético, que por vezes senti dificuldade em dar resposta à montanha-russa de emoções com que me deparava num só dia. Sorri perante vidas acabadas de nascer; fiquei enternecido com outras, igualmente novas de espírito, mas longas na soma das décadas; vezes houve, também, em que fiquei chocado.

Do lado de cá da secretária senta-se, também, uma vida com algumas histórias e muitas incertezas. Esta pessoa que os utentes vêem é diferente daquela que encontraram nas primeiras semanas de estágio e está irreconhecível quando comparada com a que entrou para o curso de Enfermagem há uns anos atrás. O contacto com tantas histórias fez-me amadurecer e deixei, forçosamente, de ver as coisas a preto e branco. Tive de aprender a conviver com a incerteza, a contemplar as áreas mais cinzentas da vida. Ao ímpeto da adolescência seguiu-se uma maior maturidade e, hoje, o que me parecia absoluto ficou completamente oprimido pela esmagadora relatividade das vidas que fui observando.

Como é que se lida com tamanha roda-viva de pessoas, ideias e hábitos? Não sei explicar ao certo… Ao longo da minha aprendizagem, tive de reanalisar a minha postura, as minhas ideias, até mesmo, alguns preconceitos.

Considero que o mais importante de tudo foi dar oportunidade aos utentes de partilhar o seu saber, a sua experiência, as suas vidas. Os verbos “explicar”, “informar” e “orientar” deram primazia ao “ouvir” e a relação com estes ganhou uma nova dimensão. Certamente, existem lacunas por colmatar, até porque, a relação com os utentes não se dá maquinalmente e cada nova vida com que me deparo é uma nova história que começa.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Descrente?

A minha fé está ladeada por uma razão transcendente, por um cepticismo fervoroso. Não há Inferno que me intimide ou Céu que nivele a minha conduta. Não há nenhuma punição que atenue os meus erros ou preces que me tornem melhor pessoa. Os meus actos de bondade são espontâneos e não se devem a qualquer mandamento. Talvez por isso não tolere “beatices”, fés hierarquizadas ou falsos pudores. Não camuflo a frágil condição humana com dogmas irreais, místicos ou transcendentes. Vivo contemplando a metafísica das pequenas coisas – do teu olhar, do teu sorriso…