quinta-feira, 26 de março de 2009

Verdade sobrevalorizada

Ouvi a expressão “verdade sobrevalorizada” numa série de ficção de que gosto particularmente. A personagem despejava estas palavras depois de perceber que todas as suas certezas, que as verdades que lhe pareciam certas, não teriam necessariamente impacto no futuro. E, logo ali, começou a surgir-me uma cascata de ideias. Tempos atrás, diria, muito seguro de mim, que a verdade é um valor intocável, inviolável. Até aperceber-me que, na minha hierarquia de valores, a verdade é fundamental, mas não vem em primeiro lugar. Descobri que verdade e integridade não são sinónimos. A primeira move-se dentro da esfera da segunda, mas não a determina. A “verdade absoluta”, ninguém a conhece: enxergamos a realidade através da reduzida perspectiva que a condição humana permite. Além disso, há verdades que magoam e há as que são completamente inúteis. De que serve a mais pura verdade, se me coloca numa situação desconfortável e não me traz nenhum benefício? Assente nestas premissas, parece-me que a verdade deve aliar-se ao bom senso, à responsabilidade, às consequências e aos benefícios que trará. As probabilidades são, também elas, verdades. Contudo, não serão verdades ingratas?! 95% de probabilidade de insucesso – com esta esmagadora probabilidade, quem consegue agarrar-se à verdade dos 5%. Não gostaria de parecer leviano, de transmitir que aprovo ou incentivo a mentira, mas não será a verdade sobrevalorizada?

Não há maior verdade do que aquela que atesta a incontrolável contingência da realidade.

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